“Uns dias chove, noutros dias bate sol”
Dizem que em algum lugar de Salvador há um verão invencível
Sempre que leio um desses romances russos, faz muito frio nas ruas de São Petersburgo. A nevasca é tamanha que, por conta do roubo de um capote, Nikolai Gógol criou uma história que segue interessante por séculos.
Pois, bem, imagine aí que estou lendo O Capote, à sombra refrescante do ar-condicionador de uma clínica odontológica. É uma tarde comum de Inverno no Hemisfério Sul e, nesse exato instante, o Hemisfério Norte enfrenta uma onda de calor selvagem.
Junho foi o mês mais quente, não só de 2023, mas, do século. A informação é do Copernicus, que é como se chama o observatório europeu do clima ou da seca, como quiserem. Superou até a onda de calor de 2021, que ficou conhecida como Lúcifer. Um inferno.
Nada que se compare aos 57 graus registrados em 1914 no Vale da Morte. Na porta de vidro da clínica, reparo em um aviso sobre o uso obrigatório de máscaras, certamente colocado ali no período crítico da pandemia. Por menos de um segundo, confesso, não sei em qual ano estamos.
Será que o vírus voltou e não fiquei sabendo? Vai ver mantiveram o adesivo para o caso de alguma emergência. Preguiça de colar de novo. Convenhamos, desde março de 2020, nada parece tranquilo nesses assuntos.
Pelo janelão horizontal de vidro do consultório, já devidamente sedada, diviso os contornos do meu prédio. Um prédio entre muitos prédios. Como é esquisito ver o local em que se vive assim de longe, sem a intimidade dos móveis. Vivo ali mesmo?
O céu está carregado de nuvens, mas o calor não cede. É certo que chove, às vezes venta muito forte. E é sempre triste constatar o quanto é frágil essa nossa aldeia Potemkin.
O azul, no entanto, insiste, como antigos vendedores de enciclopédia, com a paciência dos que têm contas a pagar. Mas a quem será que o azul deve? Talvez a mim, que ando cansada demais para os tons cinzentos do cotidiano.
Dizem que em algum lugar de Salvador há um verão invencível. Só não se sabe onde.
(E eu voltei a ouvir música).



Adorei. Gosto muito de ler KB!
Que delícia de texto!