Quase janeiro
É preciso fechar ciclos e traçar círculos para se reconciliar com o passado?
Antes que o passado fechasse o círculo mágico, cada um de nós teria que confessar um segredo a desconhecidos. Aquele ritual representava a confiança no Universo, que cuidaria de nós a partir daquela data e no futuro. Eu, que nem sabia em qual dia estávamos, desnorteada pelo sossego, lembrei que o hexagrama 33 simboliza o retiro, a retirada, no I Ching.
À medida em que as linhas avançam dentro do hexagrama e vão mudando, até alcançar o ponto mais alto, ocorre um fenômeno interno. Tudo aquilo que nos prende, até o poder supremo da palavra, liberta-se, a mutação transcende o apego. Então a retirada amorosa acontece, plena, saudável, primeiro passo para o retorno.
Enquanto todos já desabavam em mistérios, respirei fundo e olhei para as estrelas, que pareciam fundar um novo país no céu de quase janeiro. Ganhava tempo para inventar um segredo, antes que a roda alcançasse meu corpo, ciente de guardar o que estava dentro do peito com tanta força que, se algo fosse dito, forjaria por certo uma explosão de supernovas.
Dizem que é assim que se forja o ouro no espaço. Também em mim, o metal precioso? O que poderia confessar, enfim, devassa que devastaria meu segredo, cofre blindado no peito. Além de resistir a pé de cabra, marreta, maçarico, furadeira e macaco hidráulico, aguenta até 4 horas de fogo em um incêndio de 800°C — diz o anúncio do modelo mais seguro.
Talvez confessar que ainda escrevo, sina, paixão, tesouro. Mas como pisar em solo tão sagrado sem macular o que é o templo e seu culto? Um romance obscuro e que jamais se converterá em um clássico, título empoeirado nas estantes de um sebo. Ah, esse livro nunca lido, o autógrafo perdido de seu dono, um miolo indefinido, páginas soltas reinventando enredos.
Talvez confessar um segredo, pecado imperdoável e, ainda assim, inocente — por descuido, tanto de beatitude se perde no cotidiano. Agora mesmo esse silêncio, o vento suave daquela noite de quase janeiro no círculo mágico do passado. E a sensação de que o Universo que nos guardaria, a partir daquela data, e no futuro, ainda me acaricia os cabelos.


Que texto bonito! As estrelas parecendo fundar um novo país no céu e o segredo que, ao ser dito, provocaria uma explosão de supernovas. Lindo! Poeta é Poeta.
Você sempre me emociona, Madame K. E me traz um silêncio que se mistura a espanto. Que o romance não se perca nem seja esquecido, eu guardarei meu exemplar com o seu autógrafo.